Como dívida, energia, desigualdade e guerra revelam os limites do poder norte-americano
Habitação, salário e a crise de
reprodução social
A crise econômica também
aparece na vida cotidiana. Em 2025, o Departamento de Habitação e
Desenvolvimento Urbano registrou 745.652 pessoas sem moradia em uma noite de
janeiro, incluindo 266.320 pessoas em situação não abrigada.
O número total caiu em relação a 2024, mas permanecia 27% acima do nível de 2013; a falta de moradia não abrigada havia crescido 36% no período.
Contagens pontuais não capturam todas
as pessoas que alternam entre abrigos, casas de parentes, hotéis temporários e
moradias precárias. Ainda assim, mostram a dimensão da pressão.
A habitação é particularmente importante porque o aluguel não é uma despesa facilmente adiável. Quando a renda não acompanha o custo de moradia, a família reduz alimentação, saúde, transporte e educação antes de conseguir reduzir o aluguel.
O Harvard Joint Center for
Housing Studies registrou novo recorde na proporção de locatários
sobrecarregados pelo custo habitacional em sua análise mais recente.
O salário mínimo federal continua em US$ 7,25 por hora, segundo o Departamento do Trabalho, valor vigente desde 2009. Isso não significa que todos os trabalhadores recebam esse piso: muitos estados e municípios adotaram valores maiores.
Mas a permanência do piso
federal mostra a ausência de uma atualização nacional compatível com a inflação
e com os custos urbanos.
A consequência macroeconômica é uma crise de reprodução social. Trabalhadores podem estar empregados e, ainda assim, não conseguir reproduzir sua força de trabalho em condições estáveis.
A economia registra ocupação, mas a sociedade registra endividamento, despejo, insegurança alimentar e deslocamento.
A hegemonia externa passa a
coexistir com uma cidadania interna cada vez mais incapaz de acessar moradia,
saúde e segurança material.
Por que a estratégia de guerra deixou de produzir vitória política
A afirmação de que “a
estratégia de guerra não funciona mais” precisa ser formulada com precisão. A
força militar dos Estados Unidos ainda é capaz de destruir alvos, proteger
rotas, impor custos e vencer confrontos táticos.
O que deixou de funcionar é a
conversão automática da superioridade militar em controle político sustentável.
A experiência do Iraque é ilustrativa. Uma análise do Center for Strategic and International Studies descreveu como a invasão de 2003 produziu uma vitória militar rápida sem um plano viável para o período posterior.
A dissolução de estruturas estatais, a fragmentação sectária e a ausência de reconstrução política contribuíram para o surgimento de novos conflitos.
Mais tarde, a derrota territorial do Estado Islâmico não resolveu a crise de governança, a influência iraniana ou a reconstrução das áreas destruídas.
O mecanismo se repetiu, com diferenças, no Afeganistão, na Líbia, na Síria e em operações de contraterrorismo. A tecnologia permite localizar e atacar alvos.
Ela não cria legitimidade,
instituições confiáveis, emprego, soberania compartilhada ou uma ordem regional
aceita pela população. Bombardeios podem interromper uma capacidade militar por
algum tempo; raramente resolvem a estrutura social que produz resistência.
A guerra também se tornou financeiramente menos eficiente. O projeto Costs of War, da Brown University, documenta os custos econômicos, humanos, sociais e ambientais das operações norte-americanas pós-11 de setembro.
O custo não está limitado ao
orçamento do Pentágono. Inclui juros da dívida de guerra, assistência a
veteranos, reconstrução, deslocamentos populacionais, danos ambientais e
efeitos políticos internos.
Essa é a contradição central do imperialismo tardio: a máquina de guerra pode continuar poderosa, mas sua eficácia histórica diminui. Quanto mais a ordem internacional se torna multipolar, mais difícil é transformar coerção em obediência.
Estados regionais desenvolvem
mísseis, drones, guerra eletrônica, redes de milícias e capacidade de negação
de acesso. A defesa de um estreito ou de uma base deixa de ser uma operação
puramente militar e passa a envolver infraestrutura, comércio, opinião pública,
seguros e diplomacia.
Nesse sentido, dizer que os Estados Unidos “perderam o controle do Oriente” é uma formulação política, não uma descrição total da realidade. Washington ainda possui bases, alianças e capacidade de intervenção.
O que se perdeu foi a
expectativa de que essa presença pudesse organizar sozinha o Oriente Médio. A
região deixou de ser um espaço passivo de projeção de poder e tornou-se um
centro ativo de contestação, negociação e diversificação de alianças.
Declínio não é colapso: o que está em disputa
O termo “queda do imperialismo”
não deve ser entendido como uma profecia de desintegração imediata dos Estados
Unidos. Potências em declínio podem conservar riqueza, tecnologia, armas e
influência por décadas.
A questão é que esses recursos
passam a produzir menos estabilidade por unidade de custo.
A crise de 2026 revela precisamente essa deterioração da conversão. Trilhões em dívida não garantem infraestrutura social. Gastos militares não garantem pacificação. Inovação em IA não garante distribuição de produtividade.
Controle de rotas marítimas não
impede que o preço da energia alcance as famílias. Crescimento financeiro não
elimina a precariedade habitacional.
A última crise, portanto, não é apenas uma crise de confiança no dólar ou uma eventual recessão. É uma crise de coerência entre a base material interna e as ambições externas.
Um Estado pode sustentar déficits elevados quando sua economia cresce, sua moeda é desejada e sua população aceita a distribuição de custos.
Mas, quando juros, energia,
desigualdade e guerra avançam ao mesmo tempo, a hegemonia deixa de parecer uma
fonte de ordem e passa a parecer um mecanismo de transferência de custos.
O futuro não está determinado. Os Estados Unidos ainda podem reduzir sua vulnerabilidade por meio de ajuste fiscal progressivo, investimento habitacional, reforma tributária, transição energética, regulação financeira e uma política externa menos dependente da força.
O obstáculo é político: essas
medidas exigem reduzir privilégios, abandonar guerras de escolha e aceitar que
nenhuma potência consegue controlar indefinidamente uma ordem mundial que já
não é unipolar.
A queda do imperialismo, nesse sentido, não será necessariamente uma cena única, com uma bandeira sendo retirada de uma capital.
Pode ser um processo mais lento: aliados que diversificam suas relações, rivais que aprendem a impor custos, sociedades que recusam pagar por guerras sem fim e mercados que passam a exigir prêmio maior para financiar promessas antigas.
A crise final de um império
começa quando sua capacidade de mandar ainda existe, mas sua capacidade de
convencer, pagar e produzir resultados já não acompanha a escala de suas
pretensões.
Texto e informações por: Manus Out 2026 Free Version. Free Research Preview. (sem alterações)




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